PO Crítica - UP – Altas Aventuras por Luciana Paraiso

UP – Altas Aventuras
Luciana Paraiso
http://luparaiso.blogspot.com/

Admito que a princípio, o filme de Pete Docter (Monstros S.A.), não me parecia grande coisa, sabia que teria qualidade, pois nunca assisti nada da Disney/Pixar que não tivesse. No entanto, fiquei atordoada em ver como a cada ano, a cada filme, a Pixar Animation Studios segue sua carreira de constante superação.

[Spoiler]UP narra a história de um senhor idoso, chamado Carl, que na infância sonhava em ser explorador. Ainda criança, ele conheceu uma menina que tinha o mesmo sonho e os dois se tornaram grandes amigos. Mais tarde, adivinhem só: os dois casaram e viveram uma vida feliz juntos. Quando já estavam com a idade avançada, a esposa do protagonista morre e ele sente muito arrependimento por não ter conseguido realizar o sonho de sua amada: explorar a América do Sul, mais precisamente, O Paraíso das Cachoeiras. Ele então se torna recluso e não sai mais da casa que ele e sua esposa construíram.

Mas devido a problemas com a vizinhança em que morava, Carl acaba sendo forçado a se mudar e, tendo sido vendedor de balões a sua vida toda, ele decide então partir carregando sua tão amada casa. Para isso, ele amarra nela milhares de balões. A idéia dá certo e ele segue rumo a América do Sul, para realizar o sonho de sua ex-mulher. Basicamente, é essa a história do filme.

Só que na verdade, UP é muito mais do que isso. A começar pelo elemento mais curioso do filme: a casa voadora de Carl. Isso porque ela representa muito mais do que apenas uma moradia. Em primeiro lugar, a casa representa Elie, a falecida esposa de Carl. O protagonista está sempre falando com ela como se estivesse conversando com sua amada e ele faz de tudo durante o filme para preservar a casa, como se perdê-la fosse perder novamente sua mulher. Em segundo lugar, a casa representa o pesado fardo que Carl se obriga a carregar. Sendo um velho arrependido, Carl se obriga a ir até à América do Sul para cumprir uma promessa que tinha feito a sua esposa. Ele carrega literalmente nas costas (pois em um pedaço do filme ele tem de arrastar sua casa) todo o peso dessa promessa não cumprida, e por isso sofre. Mas o interessante é que esse mesmo elemento (a casa) que representa um peso insuportável é aquele que o ajuda a atingir seus objetivos, é o mesmo que faz com que Carl alce vôo. A casa tanto é o arrependimento e a tristeza de Carl como também é a esperança e a determinação que o fazem progredir. Percebendo essa dualidade, o espectador atinge o ápice da fascinação em uma das cenas mais belas do filme: tendo que desviar-se do seu caminho para ajudar seus recém-conhecidos amigos (sim, o filme tem outros personagens!) Carl tem que esvaziar sua casa de móveis e objetos antigos, que carregam com si toda a memória e história do casal de idosos, para que sua casa voe mais alto e rápido. É muito interessante pensar em como somente após esvaziar sua casa, somente após deixar para trás o peso que o estava detendo, o protagonista se transforma em verdadeiro herói. Existem outras cenas do filme, igualmente belíssimas, em que essa dualidade se mostra clara e nas quais Carl mergulha em terríveis impasses: ele deve preservar sua casa ou deixá-la para poder fazer o bem? Ele deve ater-se ao seu passado ou ultrapassá-lo para poder viver?

Existem muitos outros momentos memoráveis no filme e outras personagens interessatíssimas – e tão cativantes quanto nosso protagonista –, como Russel, Dug e Kevin, mas acredito que de fato Carl seja o mais intrigante, pois ele é excelente representante daquilo que faz do homem realmente humano: o impasse, a incerteza, a dúvida; e mais do que tudo isso: a saudade.

UP não é só um filme de animação 3D, é uma obra de arte que, como tal, retrata maravilhosamente aquilo que nos constitui e nos forma como seres humanos. UP é um filme para divertir, para emocionar e para fazer pensar. Sem dúvida, imperdível!
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